1h 49min 53seg

Olá amigos.
Alguns dias atrás, neste mesmo site, foi inserido minha entrevista sobre a corrida. Agora curta a prova com minhas palavras.
Então lá estava eu, a poucos minutos da largada, bem.........., poucos não, cerca de 40 minutos, Chegamos cedo para entrar no clima, e que clima. Lembro-me que chovia muito, e que a aflição tomava conta dos atletas inexperientes. Toda aquela água fazia alguns desistirem na beira do asfalto, mas eu, eu não, não eu. Estava preparado, já havia imaginado a corrida mentalmente com todas as possibilidades climáticas possíveis, desde chuva ácida até tempestades de areia, os verdadeiros campeões costumam fazer isso.
A equipe estava unida, técnico e psicóloga ao nosso lado na estação de metrô Brigadeiro nos davam as últimas dicas e contavam -nos os segredos dos principais adversários naquela prova.
Ao subir as escadas da estação e adentrando a Avenida Paulista, a multidão que lá se aglomerava esperando por nós atletas foi ao delírio, parecia final de campeonato mundial de atletismo. Era um empurra de lá e puxa pra cá, flashes de máquinas, fãs enlouquecidos gritavam “eu te amo” e coisas do gênero..., um vucuvuco daqueles.
Lembro-me de ter que usar aqueles banheiros públicos móveis...........deixa pra lá......é melhor nem lembrar.
Ao caminhar pela avenida mais importante do país, lembrei do tempo que era criança, quando jogava bola descalço por não ter dinheiro para comprar um kichute novo,e ao olhar meus pés e ver meu rebook novo todo encharcado por causa da chuva me deu vontade de chorar.
Cada passo rumo a largada, cada pingo de chuva no trajeto, cada grito que vinha das arquibancadas lotadas faziam com que meu espírito de atleta ficasse cada vez maior, me dando a convicção que o Record seria fulminado, assim como Bem Jonhson fez em Seul nos 100mts razos.
Conforme me aquecia o coração batia mais e mais rápido, o calor tomava minha pele e evaporava os pingos de chuva que em mim caíam, a sede tomava minha boca e a garrafa de água que eu trazia comigo já estava meio vazia ou meio cheia, você decide.
Cinco minutos “gritou o locutor”. Todos aos seus postos.......
Estávamos lá, 15000 atletas prontos para a degola, pronto para superar os limites. Ouvidos aguçados, concentração total, um movimento em falso acabaria com um ano de trabalho. “Bum”, o tiro de canhão foi disparado, como uma equipe de nado sincronizado disparamos a toda velocidade, 10,11, 12...18Km por hora, o vento cortava nosso rosto como lâminas Samurais cortam os membros dos mais fracos. Velocidade total, até que...........uma câmera da globo.......nunca um espaço foi tão disputado, aglomeração, tapas, chutes cotoveladas.......tudo para aparecer na Globo.
7,32 minutos depois da largada, estávamos na descida da consolação, a chuva estava em sua força total, vários pequenos rios se formaram na rua, um atleta que se fantasiou de atleta radical, usou seu caiaque da fantasia e tomou a ponta até o Km 2 onde havia uma outra câmera da Globo e ele acabou sendo literalmente “afundado” pelos loucos que adoram aparecer.
Quando os líderes apontam no km 3, a torcida fica apreensiva pois logo percebem que não estou lá. Meu joelho sentia os anos de minha idade e já não respondiam como antes.
A vitória, que era certa, começa a desabar como um bêbado desaba em uma descida íngreme feita de paralelepípedos em um dia de chuva. As lágrimas da multidão se confundem com a chuva que desce no rosto de cada torcedor molhado de chuva. Mas ao verem minha dedicação e empenho pela vitória, o público aplaude de pé até o final da prova, gritando meu nome, jogando flores em mim, cenas que só o esporte pode criar.
Ao sair da Avenida Brigadeiro e tomar a Av. Paulista, fogos são lançados ao ar, chuva de pétalas de rosas caí dos edifícios, a multidão toma metade da avenida somente para tocar seu ídolo, sua fonte inspiradora, seu Deus, sua Vida. Cruzar a linha de chegada é como um ápice de insanidade, tamanha a felicidade dos fãs. Os seguranças impedem que aquela gente chegue perto de mim, mas eu peço que deixem. “Ao povo o que é do povo”, então lá estou eu, 1h49min depois da largada, nos braços do povo
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1 Comments:
Muito legal Wilhão, espero ano que vem correr com vocês. Só não espere piedade de minha parte, vai comer poeira ou tomar água de chuva.
Só depende do clima.
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